Lilypie Fifth Birthday tickers

Lilypie Second Birthday tickers

Deles e da vida

A amizade que levava a que algumas pessoas continuassem a passar por aqui, mesmo sem palavras novas, mesmo sem novidades. Leva-me a fazer este post. Não é uma promessa de retorno. Não sei se sou capaz de manter o registo materno-delico-doce que geralmente aqui se notava.
A verdade é que o tempo, e não a falta de histórias, levaram a que não sentisse o apelo de lhes fazer estas dedicatórias.
A Clara crescerá e dir-me-à várias vezes, assim como eu, tantas e repetidas vezes, teimei em apontar aos meus pais, que não teve registos como o seu irmão. Que a sua história não está contada da mesma maneira. E aqui está, talvez, a maior reserva de explicações para a diminuição de publicações nesta via. A sua história, a dela, nunca foi tão bem contada como a do seu irmão. Não porque o Amor fosse distinto, não porque ela é menos extraordinária, não porque houvesse menos histórias. Mas simplesmente porque eu sou outra, o tempo é outro, viver tem-se feito de outra maneira.
A verdade que escapou, neste tempo em que moribundo o blog ia balouçando ocasionalmente pelos meus olhos, a escrita sempre foi fugidia. A maternidade passou a ser algo tão dentro de mim, tão intrínseco, eles passaram, tão forte e inquestionavelmente a fazer parte do meu Eu, que escrever sobre eles passou a ser um revolver de mim mesma, ao qual nem sempre estou disponível para aceitar.

Outras tecnologias apareceram, e apesar de ter encontrado muitas das pessoas que este mundo virtual me fez conhecer, há aqui algumas excepções para quem deixo o contacto, caso ainda se lembrem por aqui passar. https://www.facebook.com/Jane.Soares


Este post não é uma promessa de voltar à escrita aqui (se desfilarem a minha lista imensa de blogs podem ver que aqui e além vou escrevendo com outros temas) mas desbloquear esta pausa, já é um sentimento bastante libertador.

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do João... de finalista a caloiro...

E num tempo nasceu, e em dois tempos se pôs andador, e em três tempos se tornou falador, e em menos que nada chegou o tempo dos porquês. e de tudo um pouco experimentou: passou de bebé a sonhador de super-heróis. criador de monstros de papel, contador de histórias. agitou as nossas mentes com os seus repentes. Aprendeu a ficar, por vezes, sossegado. Mostrou que nem sempre sabe estar calado. Teve muitos sonhos em que voou e outros tantos em que chorou, se houvesse cão, ou monstro ou susto que na noite o surpreendesse. E é menino de cedo deitar e também de cedo acordar. E passou a usar um acessório de charme para ver melhor. E este ano falou, talvez, de amor... e de namoradas. E no seu mundo as palavras começaram a ter lugar, e procura ler quase tudo o que vê. E escreve como fala, como lhe parece. E cada vez escreve mais e melhor. E já lhe fiz o aviso... nada de ir dizer à professora da primária "Eu já sei"....pois falta aprender com correção. E de cartola na cabeça e bengala na mão... emocionou-nos ao vermos o quanto cresceu. Continua teimoso e muito provocador, mas brinda-nos diariamente com as suas palavras meigas, um gosto de ti, tão quente e doce. Não aprendeu ainda a lidar com a frustração, e enfurece-se se algo não corre bem. Foi o ano de aprender (quase) a nadar, de perder o medo da  água. E vive um misto de esperança e curiosidade pelo novo que por aí vem, e já uma saudade daquilo que fica para trás. E pergunta-me muitas vezes como irá ser, esse novo tempo, essa nova escola. Nem eu sei e dividimos sorrisos e ansiedades nesta espera. Como sempre, sofro desejando um todo perfeito. Uma aceitação imediata, um voo planado sobre o dias novos. Haverá livros e cadernos, e um estojo de lápis de pau... e uma mega mochila, tão grande. E as manhãs mais ditadoras nos horários. Pediu-me um despertador dizendo: Se ele tocar eu sei que tenho de acordar. Contra fatos não há escusas. Este é o Verão, aquele Verão, em que ainda antes de crescer, terei o meu menino ainda com os olhos cheios de dias em que as actividades, o parque da escola eram um delicioso prazer... Que venham outros dias, com outros rigores, mas que o seu prazer por aprender e descobrir os tornem igualmente excitantes.

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ainda da Clara

Porque está na hora de pensar em mudar para uma cama "de grandes".
Ontem, para que se adaptasse, tirei a grade móvel da cama de grades.
A Clara durante a tarde achou um piadão em poder usar a sua cama livremente, entrando e saindo conforme lhe apetecia. Brincou em cima da cama, decorou-a.

Mas ao chegar à hora de dormir a coisa não foi tão fácil, chorou que se desunhou. Queria os buracos.
- Quero aqui os buracos! Eu quero os meus buracos! - Dizia entre soluços e lágrimas. Não entendemos logo o que eram os buracos, mas depois percebemos que era a maneira dela dizer que faltava ali a grade...
Tentamos acalmá-la explicando, mais uma vez, que em breve teria uma cama igual à do mano, sem "buracos". Aos pouco foi-se acalmando e lá adormeceu, não muito convencida.

A surpresa deu-se de manhã, quando orgulhosa e já ao pé da nossa cama, declarou:
- Saí da cama sozinha!


A minha bebé está, eventualmente, pronta para mais uma mudança.

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da Clara

Em estado febril do início da Varicela.
contexto: cama dos pais.
hora: meio da madrugada.

Clara: Eu estava no tecto e não chorei, depois vim pa baixo. (...pausa...)  o tecto, está sempe calado... não tem boca...
(...pausa...)
não tem nariz...

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da Maternidade

"A maternidade traz uma alegria inestimável,mas também tráz tédio,cansaço,tristeza. Nada é capaz de causar tanta alegria,tristeza,orgulho e cansaço,pois não há nada tão difícil quanto ajudar um ser a desenvolver sua própria individualidade, sobretudo quando lutamos para conservar a nossa."
( Frases e Pensamentos de Marguerite Kelly e Elia Parkson) Mensagem sobre Dia da Mãe

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Aqui e agora, esse é o tempo, o nosso tempo

Prefácio:
Voltado ao abandono durante largos períodos, eis que o espaço me parece cada vez mais frio e menos meu. De vez em quando venho namorar-lhe os posts antigos, admirar-me com o tempo que passa, ou reler as poucas memórias que aqui vou deixando. Este não é um baby blog, é um mother blog, o meu... sempre na perspectiva de me voltar para eles, e de um dia aqui terem algum registo dos dias de menos memórias.
Aqui volto, desafiada, por alguém... por que há muito que me apetecia voltar e porque preciso de tempo, tempo para amadurecer as palavras no céu da boca, tempo para olhar as imagens que passam, tempo... apenas. E chegar-me aqui de coração palpitante e dedos ávidos de letras, soando os dias em frases sempre desafiadoras.

Introdução:
Este post centra-se no facto de que não existe outro tempo, não há nada para além do agora, e este perspectivar de que no Aqui é que está o tudo, deixa-nos com uma saborosa sensação de poder. Infelizmente a ansiedade, o desejo e até a voracidade de outros momentos, deixa-nos muitas vezes a viver num agora esquecido, e a projectar sempre o depois, o depois e o depois.

o Sumo Espremido:
Que dias! Tomo-lhes os braços e pouso o seu peso menino no meu colo, sempre embevecido. E o pensamento traiçoeiro voa muitas vezes para o futuro. Agora, digo-lhe imperativamente. Agora. E ele volta (o tempo, entenda-se), mas fica a imagem retida num cantinho dos segundo que passaram: de: um dia não quererão este colo, um dia não se colarão a mim neste jeito que aquece a pele. Agora! O agora é o momento do belo e do grotesco. Da idade das descobertas, da surpresa com o que dizem, dos sorriso brilhante e da mão doce sobre a minha mão. E também é o tempo do desassossego, do não faças isso, do para quieto por favor, do quantas vezes eu já disse... do. Agora, é então o quê? Este balançar, este estou bem e estou desesperada, este amo-vos tanto, sobressaltado por um façam pouco barulho por favor.
Os dias não são sossegados, a casa enche-se, ora de gargalhadas, ora de gritos (com as gargalhadas posso eu bem, agora com gritos) e há sempre agoras mais surpreendentes que outros.

O João gosta de filosofar sobre a vida, e apesar de muitas vezes ser um menino birrento e impaciente, tem alturas em que o seu entendimento da vida e das gentes é algo profundamente avassalador (fico muda ao ouvi-lo, não posso dizer-lhe que ele entende assim tão bem as maldades, as injustiças, seria cruel) e eu remeto-me à escuta silenciosa e a perguntar-lhe, sempre, porque pensa ele assim.

A Clara repete, recicla e reinventa o mundo a cada observação, observa cada detalhe minuciosamente e brinda-nos sempre com comentários repletos de exactidão (se não tivesse a esforçar-me por ser um bocadinho cuidada neste discurso, diria em jeito popular que "não lhe escapa nada"). Na sua pequenês doce começa Agora com as birras mais fortes. Chora, grita, desunha-se. e num repente passa, e a sua calma volta parecendo que nada aconteceu.

O Agora é: este querer não marear, tal a força das orcilações de humores. De manter o "balance", de levar-lhes sempre sorrisos, ainda que em certos dias, por trás do sorriso, exista cansaço de outros Agoras que não o deles.

pós-Agora
No que se segue, para não alongar este primeiro de muitos textos em que os nossos agoras brotarão como cogumelos nesta fábrica, no que se segue, existe este caminhar. Este: primeiro é isto que importa, estas minhas miniaturas de gente, que sendo pedaço dos meus, tantas vezes, estilhaços de gente, são quem me agrega, quem me sustém e quem enche de unidade e quem me recentra, de cada vez que o meu espírito, às vezes ainda imaturo, às vezes ainda adolescente, cai na banalidade de não saber o que fazer pós-Agora.

ainda poderia ser dito (ou Anexos)
O João terá amanhã a sua festa de finalistas do Infantário e eu estou numa ansiedade e nervosismo que não se compreendem.
A Clara passou toda a semana com mais uma das suas crises de bronquios.
Tive dois dias seguidos em que não estava em casa na hora de os deitar, e não sei aprender a lidar com isso sem sentir sentimento de culpa
Eu às vezes ainda não sei o que quero ser quando eu crescer... e os meus pequenos devem de algum modo sofrer com isso
De tantas alegrias que me dão, a maior delas é um simples e espontâneo, de nariz colado, gosto de ti.
Eu queria trabalhar apenas das 10h às 17h e depois deles dormirem...

Reflexão:
Não foi de uma eloquência fantástica, mas dado ao tom ressacado da escrita, acho que serve para querer voltar. Breve, com mais agoras, sins e porquês.

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Dias que sangram por dentro

Há dias que sangram por dentro, dias em que nem sempre se encontra a solução para o equilíbrio. Dias que não se repetem, ficam lá atrás como uma mancha na lembrança. Corroem o peito devagarinho e persistem na sensação de que podíamos ter feito mais, podíamos ter feito melhor.

Há o dia em que ele me pergunta ao final da tarde porque eu não estava a ver o desfile dele do carnaval, o dia em que chora porque eu não pude ir à escola no dia da mãe, o seu dia de aniversário na escola em que as velas não foram sopradas nem com o pai nem com a mãe. Há os dias em que chegamos tarde e o abraço parece querer desculpar-se, em que o beijo gostaria de gritar que não vai mais acontecer. Há os dias em que a manhã os deixa ainda adormecidos e que há que bater a porta ainda antes de eles se levantarem. E ainda o explicar doentio que este ano talvez não consiga cumprir a promessa das férias, porque não será possível fazermos férias todos juntos, toda a família. 

Esses dias são punhais afiados, lágrimas sufocantes de revolta. De um não devia ser assim, não podia ser assim… tem de haver outro caminho, outra solução.
Sobre uma outra luz entender que a família é embrião de tudo, comunhão de afectos, nascimento de indivíduos. E que se tivermos de falhar, que não seja ali. Se tivermos de faltar, que não seja a eles. Se tivermos de nos ausentar, que não seja do papel maior de pais e de mães.

Respeitar seria o mote. Valorizar o tempero e Apoiar seria o caminho.
Respeitar a família enquanto núcleo base na formação da sociedade.
Valorizar o tempo que se ganha em família como essencial.
Apoiar o cidadão de modo a que ele possa equilibrar o tempo produtivo laboral e o tempo produtivo em família.

Passando no momento presente por um período muito delicado da minha situação laboral, temo que estas palavras possam ter um peso de algo que não deveriam conter. Mas a verdade é que toda a minha luta interior e exterior existe porque acho que estão a por em causa algo que é superior a qualquer emprego: a minha família.

O que eu proporia, se o meu grito deixasse de me sufocar o peito e pudesse ecoar no ouvido dos poderes instituídos seria algo que de tão simples parece absurdo ser necessário dizer.
Um mercado de trabalho que se entenda justo e cooperante, em que em troca de um serviço, que não são apenas as horas laborais mas as tarefas que realmente se realizam, recebemos uma compensação monetária. Mas que poderá ser realizado de inúmeras maneiras e não apenas das 9h às 18h. Todos temos de produzir, é um facto. E se pensarmos num empregado de uma linha de produção em que tudo acontece em cadeia, dificilmente se poderá sustentar um horário flexível. O mesmo acontece com um actor que esteja a ensaiar uma peça com mais 3 ou 4 ou 10, faltando um não é possível realizar o trabalho. E não podemos ignorar estas dependências e estas cadeias laborais, que fazem com que o acontecer não seja só de um, mas de vários. Mas mesmo dentro destas interdependências pode haver um caminho de repensar os horários de trabalho, da realização de jornadas contínuas, da planificação semanal e por tabelas dos horários, tudo isto consagrado já na nossa lei.

Para outros trabalhos, no qual me enquadro, existe grande parte do esforço que é realizado a solo. Nesse caso é muito mais fácil ajustar a jornada a necessidades pessoais. E no caso de ser necessário acompanhar a família, poderia ser possível realizar um banco de horas de compensação. Ou até mesmo, sobreviver na ausência de imposição de horários, mas realizar o trabalho por tarefas: e aqui reside a verdadeira transformação de mentalidades.

A uma pessoa que trabalhe à tarefa e não por horário:
É-lhe imposta a tarefa X que ela vai terminar em 2 horas. O empregador tinha calculado que ela demoraria 3. No dia seguinte o empregador vai dar-lhe a tarefa X mais a tarefa Y, pois ela afinal trabalha mais depressa que o suposto. Isto sucessivamente. A verdade é que a maioria dos empregadores, não está preparado para que o seu colaborador despache o trabalho mais rápido do que era suposto. É mal visto, ou é sinal de que o volume de trabalho deve ser aumentado.

O trabalho por objectivos deve ser valorizado e apoiado. E a gestão do tempo de trabalho também pode ser feita de acordo com a vida pessoal do trabalhador. A grande revolução, para mim, reside aqui: em respeitar que o colaborador, funcionário ou trabalhador tem uma vida pessoal e que esta deve ser respeitada.
Num mercado de trabalho ideal, é necessário que sejamos produtivos, que compensemos a empresa caso necessitemos de dar apoio familiar extra. Mas para isso é necessário motivação e respeito.

É necessário que o dia-a-dia seja pensado de forma a cobrir as necessidades laborais, pessoais e familiares. A minha proposta é de um dia de trabalho que termine mais cedo e que permita deste modo dar mais acompanhamento à família. Em caso de tarefas que possam ficar por fazer o trabalhador poder fazê-las na sua gestão de tempo, cumprindo os objectivos que foram colocados em conjunto.

Uma proposta concreta que queria aqui deixar, tipo nota de rodapé, é que a lei permite a que se acorde um part-time até a criança fazer 12 anos. O que sugiro é que a semana laboral para pais e mães com filhos até aos 12 anos passe a ser de 30 horas semanais (6 horas diárias, mais ou menos) e que 
a contribuição à segurança social possa diminuir, nesse período, de modo a que o salário líquido não seja tão afectado. O empregador garantiria o salário bruto mas diminuiria o seu encargo com a segurança social. (seria uma espécie de apoio ao acompanhamento familiar…)

O que eu queria mesmo, era não ter tantas vezes o peito a sangrar, porque mal chegamos a casa é hora de deitar, por dizer aos meu filhos que não posso ser eu a levá-los à escola, que não posso estar no dia da mãe… que vão ter de soprar as velas sozinhos…de lhe dizer que ainda não sei se nas férias da escola vou poder estar com eles...

Este texto faz parte de um movimento que surgiu com o mote Revolucionar para Flexibilizar:
Aderi a este movimento, porque acho que vivemos uma inversão de valores, que é importante produzir, mas mais do que isso é importante viver e respirar fundo, sem sangrar.

+ info aqui:

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Por um mundo de trabalho mais flexivel

O repto foi lançado inequivocamente, alguém apelava a que neste dia de 28 jogássemos ao jogo e se!
E se.... pensei eu, que o que mais desejo há muito muito tempo é alguma flexibilidade dentro das organizações em que me vou inserindo.
Antes fez-se o preâmbulo no pensamento: recordações do tempo da licença de parto (em que trabalhei parte dela a partir de casa)... recordações da segunda licença de parto, em que desenvolvi um projecto artístico há muito planeado.
Sou menina de variados ofícios, de saltitantes ideias, de gostar de pão e também gostar de queijo, e de gostar, antes de mais, de ter as mãos cheias de coisas que vou criando, que vou alimentando, que vou amando.
Preâmbulo numero dois: Depois do nascimento dos meus filhos foi necessário recusar coisas a nível laboral que os prejudiquem... e com isso a dita "carreira" compromete-se... recusar estar em viagens dois meses durante o ano... recusar horas extras... coisas que impliquem que o dia a dia deles se comprometa.
A verdade é que apesar de continuar a desejar fazer uma tonelada (e mais meia) de coisas, de continuar a ter mil e um projectos a quererem sair da gaveta a prioridade é o bem estar deles, o equilíbrio e o máximo de tempo disponível para as suas meninices.

O dia a dia fora das 9h às 18h... eles no seu depósito-de-meninos, no qual confio plenamente mas com a angústia do número de horas em que lá são deixados... e no parco número de horas que sobra para que em conjunto ensaiemos modos de ver o mundo, brinquemos com nuvens brancas ou fiquemos simplesmente entre sorrisos e olhares perdidos.

Depois do preâmbulo deixo o rectângulo, o meu desejo, o meu e se (unida ao movimento dos part-time lovers)

E na minha visão imediata o que vislumbro é um fantástico tempo, bem dividido, apurado com minúcia e em que as mães ou os pais, ou os que assim o entendessem, laborariam no tempo em que os pequenos deveriam ser consagrados à escolinha. Na pública termina às 15h30 e a essa hora terminaria a jornada de trabalho (contínuo já daria umas 6h e 30) A partir dessa hora brotariam abraços, gargalhadas, parques inundados de sorrisos... onde se ganharia o tempo, o tempo da formação, o tempo do equilíbrio, a formação cívica, a dos valores, a das boas maneiras seria ministrada ali, nos jardins, pelas ruas, à beira mar, perto dos rios, pelos pais... pelos cuidadores e não empurrada para os professores/educadores que têm de se desdobrar para fazerem todos os papéis que os pais deixaram de ter tempo de fazer...
E eu poderia aqui dizer que esse tempo de educação pela família era um serviço público, e que até devia ser remunerado, mas não chegarei tão longe. Vou dizer que era um serviço imprescindível, desejável e que só poderia trazer melhores cidadãos para este nosso mundo. (Ao invés um chega a casa pelas 19h ou 20h e entre fazer uma refeição, um banho e deitar, quanto tempo sobra que a nossa visão do mundo passe para os pequeninos olhos que esperam tanto de nós?)
Chegar-se-ia a casa numa aura feliz, a tempo de preparar uma slow-food, em conjunto, de a fazer em família, demorando-nos nas conversas. Ganhando tempo.
Os meninos cedo se deitam, e o tempo volta a poder ser do trabalhador. Neste after-hour o part-timer poderia deixar de o ser e usá-lo para a partir de casa realizar o que ficou pendente, terminar algum projecto. Ou no meu caso, usá-lo para as outras mil e uma coisas que tenho na manga com muita vontade de as fazer sair.
A minha defesa do part-time é a da possibilidade de ter cidadãos com uma formação em família, gente que se une por elevar a instituição mais perfeita de todos os tempos, embrião de afetos, gestora de sonhos e alavanca de tantos projetos.

Um part-timer que trabalhe menos horas, pode realizar as mesmas tarefas, pode compensar fora de horas com maior volume de trabalho, e pode ainda fazer algo por este nosso mundo, que é deixar filhos com as mãos (e os olhos) cheios de sementes de esperança para este nosso mundo!

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Olhares

Existem duas coisas que me conseguem iluminar a nuvem mais cinzenta:

Este Olhar:



e Este:

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Momentos

Há momentos e cores que definem os dias


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a minha hora

esta é a minha hora. a hora em que o silêncio toma conta dos sonhos cor-de-mais-qualquer-coisa. a hora em que depois de todas as pestanas se fecharem e a respiração tomar um ritmo compassado. as portas se encostam para que o mundo dos sonhos seja deles, e eu me re-centre no meu umbigo. esta é a hora em que tantas vezes não sei onde pousar os olhos, não sei onde esconder as mãos...

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Era Verão

e nós aprendíamos a partilhar








e a cuidar dos mais pequeninos.

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Horas contadas

Acho sempre que o tempo é pouco, que não serei capaz de registar nada que valha as linhas que ocupa. Que a mente esvazia-se face à quase imposição de um: tenho de escrever um post se não a Fábrica fecha. E cá estou eu de coração e palavras em riste, na batalha para que os dias que escorrem se possam também aqui espelhar.  A culpa é do tempo, esse malvado roubador de textos em Fábricas de meninos. E do corre corre lufa lufa e cérebro desmaiado no final de tantos dias.
A esses, os dias, gosto de os ver a derreter, devagar, a serem preguiçosos e demorados e as horas em que somos "todos" se encherem de toques, abraços, gargalhadas, mimos, consolos, mais mimos, beijos e olhos que se tocam, num quero tanto que sejas meu para sempre. E este para sempre enche-me o peito, para os dias pé-de-lebre que nos fogem dos dedos, que nos fogem dos olhos... os dias mais rotineiros, mas injustos, em que há sempre a pressa de qualquer coisa, a hora de acordar, a rapidez no vestir, as mãos cheias de meninos e mochilas e casacos e minutos, muitos minutos a encher... um tempo de outras vidas, outras lutas e de nova a corrida do tirano tempo, despe, banho, sopas, pratos cheios, alguns beijos. Já é tão tarde, rápido para a cama, uma história que se acaba, o tempo é de dormir.

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Primeira composição do João

Mãe vai buscar um papel que eu quero escrever umas coisas, como se a mãe não se mostrasse muito disponível, pouco tempo depois voltou à mesa já de papel e lapiseira na mão. Quero escrever. Põe aí as letras que eu vou dizer. A mãe mostrou um ar de pouco interesse, talvez algumas letras do abecedário a permitissem voltar a estar atenta à conversa que circulava em volta da mesa familiar. A folha encheu-se numa guerra de letras, assim lhe chamou o João, e este foi o resultado final:

Ainda teve direito a uma pequena ilustração. O tempo haverá de dizer que a esta se seguirão muitas "guerras de letras" ou outras histórias mais apaziguadas com o seu autor.

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O regresso dos pais autoritários

Recebi por mail por uma caríssima amiga, e à falta de palavras minhas que venham brilhar neste blog, deixo-me algo que me parece muito muito pertinente.


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Os pais têm de recuperar a autoridade perdida e deixarem de querer agradar aos filhos, ou o mundo estará perdido, afirma um dos mais famosos pediatras do mundo. Fomos saber porquê.


Catarina Fonseca/ACTIVA | 10 Fev. 2010

Confesso que ia um bocado amedrontada. Afinal, ia entrevistar um dos homens responsáveis por um dos maiores escândalos educativos das últimas décadas, o homem que defendera a urgência do regresso ao poder dos pais contra os todo-poderosos filhos.
Acusado de tudo, de fascista para baixo, o pediatra líbio-francês Aldo Naouri diz que os pais se demitiram do seu papel de educadores e em vez disso se dedicam a satisfazer a criança, com o único desejo de se fazerem amar. Diz que confundimos frustração com privação. Diz que transmitimos à criança que não só pode ter tudo como tem direito a tudo, içando-a ao topo do edifício familiar, onde ela nunca esteve e onde nunca deveria estar. Diz que um filho hoje não é criado para se tornar ele próprio, mas para gratificar e servir o narcisismo dos pais. Diz que estamos perante uma epidemia que encoraja os pais a seduzirem as crianças, tornando-as assim em seres obsessivos, inseguros, amorfos e emocionalmente ineptos, que não sabem gerir as suas pulsões e são incapazes de encontrar o seu lugar no mundo.
Em resumo, esperava alguém mais parecido com o Deus do Velho Testamento, que me recebesse com raios e coriscos, ou pelo menos uma praga de gafanhotos. Em vez disso, recebeu-me com um sorriso só equivalente ao sol de Lisboa, agarrou-me na mão, perguntou-me por que é que não tinha filhos e assegurou-me que os homens são todos uns egoístas. "Portanto, madame, é só escolher um! São todos iguais!"

Por entre gargalhadas, falou-se de coisas muito sérias, como aquilo que andamos a fazer às crianças. Ora leiam.

- Então, nada de democracia para as crianças?
- Não. É fundamental que estejam numa relação vertical: os pais em cima, as crianças em baixo. Porque há uma diferença entre educar e criar. Criar é dar-lhe os cuidados básicos, dar-lhe banho, alimentá-lo, etc. É como criar galinhas. Educar é haver qualquer coisa que não existe e que é preciso formar. Por isso a criança não está nunca ao mesmo nível dos pais, não pode haver uma relação horizontal. Se quiser compreender o que se passa na cabeça de uma criança numa relação horizontal, imagine o seguinte: você está num avião, e o comandante vem sentar-se ao seu lado. Você pergunta, Mas quem é que está a guiar o avião? E ele diz, 'Ah, é um passageiro da primeira fila que eu pus no meu lugar.' A criança tem necessidade de alguém acima dela.

- As mães não se escandalizam com a mudança de hábitos que lhes aconselha?
- Nada disso. As mães estão petrificadas na sua angústia e precisam de se libertar. Eu digo, 'mas não vale a pena angustiarem-se dessa maneira, ser mãe é muito mais simples do que vocês pensam'. Digo-lhes que não vale a pena viverem preocupadas porque a criança não come, não dorme, ou vai ter ciúmes do irmão. Dou-lhes conselhos básicos e fáceis de seguir e tento fazer com que simplifiquem a máximo as suas vidas. O que eu quero é que a criança seja para os pais uma fonte de prazer e felicidade, e não um foco de sofrimento e angústia, e para que isso aconteça, os pais têm de estar descontraídos.

- As nossas avós não viviam nessa angústia...
- Pois não. Mas viviam num mundo em que havia três tipos de ordem: Deus, Rei e pai. Esse tipo de ordem fazia com que existisse qualquer coisa que as transcendia. Hoje todo o tipo de transcendência desapareceu, e quem ficou no lugar de Deus? A criança. Às mães que põem o filho nesse altar, eu simplifico a tarefa: digo - Não se cansem dessa maneira. Não se preocupem assim. Ponham-se a vocês próprias em primeiro lugar. Claro que não é uma coisa que elas estejam habituadas a fazer, ou sequer a ouvir, mas não é por isso que não podemos dizer-lhes, e não é por isso que elas vão deixar de ser capazes de o fazer. Acredito que vão ser capazes, porque é urgente: a bem das crianças, e a bem delas próprias. É preciso fazer as coisas de maneira tranquila, porque a mãe perfeita não existe, o pai perfeito não existe, a criança perfeita não existe.

- Mas as mães hoje têm uma vida tão difícil, é normal que se culpabilizem...
- Não é por trabalharem fora de casa que têm de se sentir culpadas. Peço às mães: lembrem-se do vosso primeiro amor. Quando não o viam durante três dias, morriam de saudades. Mas quando o voltavam a ver, assim que batiam os olhos nele era como se nunca se tivessem separado. Com as crianças, é exactamente igual. Quando tornam a encontrar a mãe, é como se ela nunca tivesse partido.

- Diz que os pais esqueceram o seu papel de educadores porque querem ser amados pelas crianças. Por que é que isto acontece?
- Como todas as crianças, tiveram conflitos com os pais. E como todas as crianças, amam-nos mas guardaram muitos ressentimentos. E não querem que os seus filhos tenham esse tipo de ressentimento em relação a eles. E pensam que a melhor maneira de o fazer é seduzir a criança para que ela o ame. O que é um enorme erro. Porque nesse momento, a relação vertical inverte-se. A hierarquia fica de pernas para o ar, e quando isso acontece, destruímos a crianças.

- O problema é que as pessoas confundem autoridade com violência. Autoridade é fazer-se obedecer, não é dar uma palmada, que o senhor aliás desaprova.
- Completamente! Não aprovo palmadas de que género for, nem na mão nem no rabo. Ter autoridade não é agredir a criança. Ter autoridade é dizer: 'Quero isto', e esperar ser obedecido. Quero que faças isto porque eu disse, e pronto. Autoridade é só isto, é assumir o seu dever. Não vale a pena ser violento, aliás porque a criança sente a autoridade. É quando o pai ou a mãe não está seguro do seu poder que a criança tenta ir mais longe. Quando há uma decisão que é assumida pelos pais, ela cumpre-a.

- Uma terapeuta de casal dizia que as pessoas hoje não têm falta de erotismo, dirigem-no é todo para as crianças...
- Sem dúvida. E é isso que é urgente mudar. O slogan 'a criança acima de tudo' deve ser substituído por 'o casal acima de tudo'. A saúde física e psíquica das crianças fabrica-se na cama dos pais. Por que isso não acontece é que há tantos divórcios, e depois a vida torna-se muito mais complicada para a mãe, o pai e a criança. Se elas decidem privilegiar a relação de casal, estão a proteger a criança.

- Educou os seus filhos da forma que defende?
- Sim sim, eu eduquei os meus três filhos tranquilamente. A autoridade significa serenidade, não violência. Ainda hoje, que eles já são mais do que adultos, nos reunimos às vezes para jantar. E no outro dia, falámos sobre as viagens de carro que costumávamos fazer - sempre viajei muito com eles. Quando se portavam mal, eu virava-me para trás e dizia: - Olhem que eu páro o carro e deixo-vos a todos aqui na autoestrada! - Só há pouco tempo é que percebi que eles achavam que eu estava a falar a sério e que seria capaz de os abandonar na estrada! (ri). Tal é a força da autoridade. Mas isso não tem importância, o importante é que funcionava! (ri)

- Diz que o pai tem de ser egoísta mas também diz que uma das tragédias do mundo moderno é a ausência do pai... Qual é então o papel do pai, para lá de ser egoísta?
- Tem duas funções: a primeira é a de possibilitar à mãe o exercício da sua feminilidade. A segunda é a de se oferecer ao filho ou filha como um escudo contra a invasão da mãe. Porque de outra maneira, a mãe vai tecer à volta do seu filho um útero virtual, extensível até ao infinito. O pai não está presente como a mãe, mas é preciso que esteja presente.

- Mas hoje exige-se aos pais que façam uma data de coisas, que mudem fraldas, que ponham a arrotar, que ensinem karaté...
- Não é preciso. Porque na cabeça das crianças tudo está muito claro: aquela que o filho ama acima de tudo é a mãe, que sempre respondeu às suas necessidades desde que estava na sua barriga. Se alguém lhe diz 'não', mesmo que seja a mãe, para ele a culpa é do pai. Ou quando muito, da não-mãe. No inconsciente de uma criança, o pai não existe. Só há a mãe. O pai tem de se construir, a bem das crianças e a bem da mãe delas.

- Antes de ler este livro não tinha consciência de que as crianças estavam tão perturbadas.
- Li um artigo recentemente do director do centro médico-pedagógico de Paris, que afirmava que em 2008 tinha recebido 394 novas famílias, e que a maior parte tinham problemas psicológicos. No fim da primária, 40% dos alunos ainda não dominam a língua, e isto é grave. E não porque tenham problemas físicos ou sejam burros: é porque não os sabemos educar. Mas é uma tarefa difícil, porque mesmo as instâncias governativas vão no sentido de seduzir a criança. Porque as crianças vendem, são um produto que se compra e se compara. Todo o mundo vai no sentido de deixar a criança fazer o que quer, porque é mais fácil que ela não cresça. Mas o que vai acontecer é que essas crianças, se não travadas, vão crescer e fabricar sociedades absolutamente abomináveis, onde será cada um por si, onde não haverá solidariedade.

- Nem cientistas... É o senhor quem o diz...
- (ri). Apesar de tudo, estou optimista. As pessoas querem saber como podem mudar. Não sou o único a dizer estas coisas, mas digo-as de forma bruta. Tenho 40 anos de experiência com pais e crianças. E é muito fácil mudar, quando começamos a ver a lógica das coisas. Além disso, o que eu pretendo é simplificar a vida das pessoas. Não quero voltar àquilo que se fazia há um século. Não quero pais castradores.

- O que é um pai castrador?
- Não é um pai autoritário, é um pai fraco, intranquilo, desconfortável na sua pele e na sua posição. O que eu digo é, a sua posição como pai ou mãe está assegurada à partida. Só tem de exercê-la. Uma vez, apareceu-me uma mãe muito alarmada porque a filha não dormia. Aconselhei-a a dizer à criança, antes de dormir: 'Podes dormir tranquila. Não preciso mais de ti hoje.' E a criança dormiu a noite toda. Por isso eu digo no fim das consultas, a todas as crianças, tenham elas 1, 7 ou 14 anos, 'Muito obrigado por me teres trazido os teus pais à consulta. Agora podes ficar descansado, eu ocupo-me deles.'


O QUE DEVEMOS FAZER...
Palavra de ordem: não compliquem.
Segundo Aldo Naouri, o esterilizador de biberões não faz sentido, nem desinfectar o mamilo.
- Os biberões devem lavar-se com água  quente da torneira.
- As nádegas do bebé devem ser lavadas com água e sabão.
- A roupa do bebé pode ser enfiada na máquina como o resto da roupa de casa.
- Em todas as idades, devem tomar-se as refeições familiares em conjunto.
- Um adolescente pode ir vestido da maneira que bem-entender.
- Petiscar, no caso de um adolescente, não é de condenar, porque precisam de imensas calorias.

 E O QUE NÃO DEVEMOS...
- Rituais antes de dormir, como a história ou a cantiga, é para irem à vida. Só servem para ritualizar o medo da criança. Deve-se mandar a criança para o quarto, e aí ela fará o que quiser com o seu tempo.
- Angustiar-nos com as horas de sono. É absolutamente necessário livrarmo-nos da obsessão do número de horas que eles dormem.
- Nunca, em circunstância alguma, se deve obrigar uma criança a comer.
- Biberão, chupeta e objectos de transição devem desaparecer antes do fim do segundo ano da criança.
- Bater nunca: nem na mão nem no rabo.
- Elogiar, só para coisas excepcionais.
- A criança não deve escolher a sua roupa.
- Uma ordem não tem de ser explicada, tem de ser executada. A explicação que é dada ao mesmo tempo que a ordem apaga a hierarquia. Se quiser explicar, só depois da ordem cumprida. A figura parental nunca, mas nunca, tem de se justificar perante o filho.


Para ler: 'Educar os Filhos', Aldo Naouri, Livros d'Hoje

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Escolhas nossas de cada dia


Todos os dias somos colocados perante escolhas. Difíceis, fáceis, algumas maiores, outras às quais não atribuímos grande importância. Somos confrontados também todos os dias com o resultado das nossas escolhas, somos aquilo que fazemos, as portas que fechamos, a brisa que recebemos, somos um produto de infinitas escolhas acumuladas e é com elas que temos de atravessar cada dia, de decisões outras e assim construindo o nosso universo.
Na maioria dos dias estou de bem com as minhas, apaziguadas a um canto da consciência, se as procuro desfilar perante os meus olhos e a minha memória, geralmente possuem todas a sua explicação, o seu quê de perfeito, a sua ordem naquela que represento e que me apresento.
Felizmente não existem escolhas difíceis todos os dias, as que fazem parte do dia a dia parecem ser remetidas para uma ala imaterial do cérebro e lá permanecerem na sua inconsistência consciente.
Hoje, são essas escolhas que desfilam na minha mente, as escolhas que fazemos dia a dia, ao educar, ao mostrar, ao dar, ao tirar, ao abrir, ao castrar... inúmeras pequenas acções que vão imprimindo carácter, vão moldando as suas pequenas vidas.
Uma amiga que tanto sabe disse-me um dia para escolher as batalhas, nunca as irei ganhar todas, por isso fazer uma lista daquilo que considero mesmo importante não ceder, e manter-me fiel a essa lista. Nas outras coisas, um pouco de maneabilidade não fará mal. Fiz a lista mentalmente, sei na teoria, o que é necessário para que eu considere alguém uma boa pessoa, ou uma pessoa só assim assim, ou até má. Sei na teoria.  E sei que os super-heróis são os bons da fita, e que os vilões são os maus.  Sei que "respeito" e "serenidade" são conceitos demasiado abstractos para serem ensinados, e que por vezes precisamos de ajuda para conseguir explicar, com palavras mais pequenas, aquilo que queremos explicar. Sei que é importante o exemplo, sei que mil vezes poderei mostrar com o meu comportamento aquilo que tantas palavras não poderão explicar.
E sei também que há horas de tudo, há horas em que a voz se mantém firme sem perder a serenidade, e há horas outras em que sem saber muito bem de onde, a voz se avoluma, e a minha figura fica do tamanho das sombras e faz tudo aquilo que eu lhes digo para não fazer.
Sei que há horas que provavelmente estarei a fazer a coisa mais acertada, se a coisa acertada existir, e sei que há outras que estarei redondamente a errar. Sei que o meu desejo de permanentemente fazer a escolha certa, agir da maneira correcta, não me impedirá nunca de errar.
Mas hoje estas palavras escorrem como prece, a prece das escolhas dos aflitos, dos que se deixam guiar, para que podendo estar a escolher bem, ou a escolher mal, eu possa sempre mostrar firmeza, serenidade e discernimento.
E quando a serenidade me abandonar, a voz se avolumar, e face a uma decisão a tomar para lhes mostrar um caminho eu pareça um gigante ensombrado, perdido aos seus e aos meus olhos sem saber o que fazer.  Que a vida possa mostrar-me a humildade de lhes fazer entender que as mães também erram, também por vezes se esquecem que gritar não é bonito, que se esquecem que há palavras que os filhos ainda não sabem entender, que não sabem muito bem se o castigo acaba ali ou se deve continuar, que não sabem por onde ir, porque alguém se esqueceu de nos mostrar o caminho.
E que a vida me possa dar a infinita capacidade de lhes mostrar que a cada escolha que fazemos, há algo que fica para trás e algo que nos imprime, na pele, nos olhos e na parte de dentro do peito, um Eu.
A minha escolha hoje foi a de despojar esta imperfeição, a das escolhas que nos marcam levemente, a das escolhas que residem dúvidas, estas escolhas pequeninas que se chamam educar, criar, amar, e que hoje me apertam o peito, e que amanhã não deixaram de apertar.
E de um abraço bem apertado nestas pequenas vidas que já não são minhas, no profundo desejo de lhes estar a mostrar o melhor caminho.

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Dificil de Explicar

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18 meses de Clara

Recordo esse dia numa memória que ainda não tem nuvens. É tudo tão claro, tão cheio de detalhes que arrepia. A hora da madrugada em que quebramos o silêncio do bloco de partos, o nascer quase tranquilo, o corpo sentido do lado de fora, o respirar com gemido, a incubadora, os pernas excessivamente inchadas ao longo de um dia a subir a descer pisos, o sentimento da distância, o dormir sozinha sem ninguém na barriga e sem ninguém ao lado, as dores dessa noite, o amanhecer e finalmente amamentar a minha cria, um colo meu no seu corpo nu e perfeito depois vesti-la de roupas e de afectos.

Um ano e meio de descobertas neste ser mãe outra vez, que me inunda por dentro de uma energia tão nova e diferente. Esta surpresa de poder amar tanto e cada vez mais. Esta imensa família que nunca esperei ter. Uma moldura bonita que hoje decidi pendurar na parede da minha memória, a lembrar todos estes belos 18 meses em que me transformei, devagarinho, num eu maior, mais forte, mais capaz.

A Clara é uma delícia, um encanto, de personalidade viva e vibrante, senhora de um nariz arrebitado e barriga empinada. Um pouco empertigada mas  tão doce. Dá abraços e alguns beijos. Gosta de risos, de andar muito depressa, às vezes até gosta de cair, quando o faz devagarinho e parecendo rebolar quando chega ao chão. E ri-se, ri-se muito como se a essência da felicidade estivesse naquele louco tombo.

Gosta dos irmãos, que a provoquem, que a façam rir, mas não gosta que a apertem, que a condicionem. Dizendo um "pára" inequívoco. Ou um "itão?"

Fala muito , de palradora de palavras sem sentido passou a falar muitas coisas que se percebem, foi um repente e agora faz-se entender com palavras dela e nossas: bada (água) impinho (guardanapo - de limpinho) papinha (=) opinha (sopinha) bebé (=) apato (sapato) pé (=) beia (meia) élha (orelha) mão (=) dudu (=) oão (João) mano (=) caca (vaca) ixa (xixa) bigo (umbigo) pipi (=) mãe (=) pai (=) bóbó (vovó) roji (arroz) batapita (batata frita) qué (quero) eitinho (leitinho) não (=) xim (sim) colho (colo) banhinho (=) chão (=) teté (chupeta) ola e xau.... bolha (bola) aça (maça) naninha (bananinha) buta (fruta) cóco (óculos) cão (=) gaco (gato) uz(luz) xai (sai) queijo (=) ixo (lixo ou bicho) cocó (para pedir a música doidas doidas doidas) e sobretudo he he he a toda a hora para pedir qualquer coisa...

Adenda de palavras que me esqueci: vinho (=)  eija (cerveja) fecha (=) abe (abre) dá (=) pega (=) toma (=) alda (fralda) pota (porta) ois (dois) alhau (bacalhau)deita (=) mas deita serve para almofada, cama...

E começa a juntar em frases: hum qué pão, hum qué teté, quem é?, hum tá e outras que inventa apato oão pé... dudu hum pota...a colho a bebé... pota fecha...


Da consulta poucas advertências fica o peso 10,9kg e o tamanho 80cm, andar descalça e ir à praia e comer de tudo.

Não sei se registei aqui, mas a Clara começou a andar com 16 meses e 10 dias, no dia da festa da aniversário da prima. Depois teve uma pausa de duas semanas ao fim das quais aventurou-se outra vez.

Clara caminha para ser feliz.

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Mesmo no meio de um duro dia de trabalho

E de eu permanecer serena a maioria dos dias. De vez em quando um assombro de tristeza transforma-me os olhos em cor de vidro... o João é gémeo de um anjo e às vezes eu não entendo em mim o que isto quer dizer...

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ser

De repente a brisa plácida e calma. Um pouco de um calor cinza que bate no rosto e o anima. Observar o dentro que se reclina suavemente para fora. Sou dos dias de sempre, das madrugadas tranquilas, dos céus que se renovam a cada instante, prometendo e oferecendo inúmeras  possibilidades de cenário. Sou as manhãs calmas, vagarosas e com preguiça a beber o sol em golos pequeninos. Sou dos abraços que se espelham no peito e do beijo repenicado e húmido que escolhe o calor da face amanhecida. Por vezes esqueço, a tranquilidade parece querer ir morar noutra brisa que não esta, e uma inquietação sempre desconhecida e nova vem morar-me nos olhos e nas mãos que se tornam ineficazes. Esqueço-me da matéria de que sou feita e da qual, como barro, posso moldar cada dia se tiver brio e afinco. E pareço ver ao longe este corpo estrangeiro, desfalecer depois de quebrado e curvar-se perante a inquietude e a sombra. Hoje a brisa plácida, calma e cheia de chilreios inundou-me os olhos de caminhos, encheu-me de uma nova força anímica, quem se não eu pode guiar os passos pelos dias? Não sei por onde quero ir, que portas se abrirão ou que abrirei, não sei que canto é este que hoje ouço e que me transforma. Mas sei que não posso suspender os sorrisos que me olham expectantes, que me esperam, que me abraçam com seu brilho e que me exigem que seja aquela por quem o seu coração bate e desespera. A mãe serena, firme e crente, nos dias, neles e em todo o sentido que tem cada minuto de vida.

E nesse reencontro comigo e com a vida, encontrar os olhos que o amor identifica, beber-lhes toda a doçura e vestir-me dela. Ser afinal, com verdade e pureza aquela que faz os seus mundos, que pinta os céus, que doura as estrelas. Hoje é dia de sacudir o pó do baú onde moram os pincéis da vida.

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