Coração rasgado

e cedo coração de mãe se rasgou ao meio. Dividindo-se entre o aqui o ali. Entre os dedos segurar os seus rebentos e ampará-los aos dois.
O João foi ontem internado com nova infecção respiratória... estão a investigar porque é tão recorrente. Mas tê-lo e mantê-lo no hospital, não poder estar lá com ele o tempo todo... ter aqui a Clara que precisa também tanto de mim.
Faz sentir esta imensa dor, a de não poder me rasgar em duas e ser para cada um deles sempre presente.
O João está aparentemente bem... inquieto pelo tempo que tem de passar em lugar tão impessoal... o pai vela-lhe as noites... e durante o dia vamo-nos substituindo.
Felizmente o hospital fica a 2 minutos a pé de casa.
Felizmente a avó dá, não só uma mão, mas o corpo todo.
Esperamos que descubram o que tanto tem massacrado o nosso menino.

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Mais que breve*

Rogou o pai por vários dias que a menina não se decidisse a nascer no dia 6, aquele dia 6 que tinha vindo a ser planeado ao longo de meses, aquele dia 6 que o prenderia, com trabalho mas também com uma imensa vontade de o fazer. A mãe fez a sua parte, continuou a manter-se quieta, já o tinha aprendido há 3 anos, já o vinha a fazer há 7 semanas, seria então mais um dia de repouso. Uma irritação que não se explica, e alguns nervos que deviam ter-se mantido longe da pele dominaram esse dia 6, mas no corpo da mãe, nem uma contração dolorosa, nem nenhum outro sinal de que o sossego pudesse ser quebrado. Geralmente estes dias prolongam-se em noites, assim o pai e o seu filho maior estavam ocupados na sua tarefa e a mãe deixou-se, como o faz tantas vezes, adormecer enquanto via um filme e o seu João descansava na sua cama linda como gosta de lhe chamar. Pelas 3h da manhã uma dor forte assolou no fundo da barriga, e que dor... ao primeiro movimento um pouco de líquido se perde... apenas um pouco, levantando uma dúvida, na mãe supostamente experiente... uns passos até á casa de banho e... mais um pouco de líquido. A dúvida cresceu. Com a mania de pesquisar tudo na internet, a mãe ligou o PC e tentou perceber se seria apenas uma perda de líquido ou se a bolsa teria mesmo rompido. Descobriu o seguinte "a bolsa de água pode rebentar e o líquido ir saindo aos poucos, pois a cabeça do bebé tapa a saída" e ao mesmo tempo um jorro de líquido verte-se do seu dentro, acabando com as dúvidas. Telefonou ao pai que terminava o jantar após a jornada de trabalho. Vai nascer... e qual pronuncio de obdiência esperou que o pai trabalhasse, que jantasse... ficando apenas por tomar um café que até seria bem vindo para enfrentar a madrugada. Chegaram a casa o pai e o filho maior já a mãe se preparava para um rápido duche, assim lhe tinham dito que devia fazer. Os filhos ficariam em casa, o maior olhando pelo mais pequeno, os pais de malas aviadas rumaram ao hospital. Na urgência a reposta às perguntas ensonadas foi só uma: é para nascer. Ainda mandaram a mãe a uma triagem, de quanto em quanto tempo tem dores: a resposta um pouco sarcástica, aqui se confessa, tive uma ali a fazer o registo e estou a ter outra agora... subimos ao bloco. A auxiliar vem também ensonada, seriam umas 4 horas da manhã... recebeu o livro, o recado das águas rebentadas, mas não tem dores pois não? Sim. Muitas... diz a mãe que já não conseguia sentar-se. O pai estava arrebentado do dia... mantinha-se sentado para balançar o cansaço. Entrou o médico, cuja careca enganou a mãe e fê-la pensar que era o único médico que ela não queria ali ver. Felizmente foi um engano. A auxiliar passou com dois cafés na mão... O médico fez a observação e preparou o internamento... 3 dedos de dilatação disse ele à parteira. Mandaram a mãe despir-se, mandaram o pai ir para casa... que viesse pelas 9 horas, e ainda iria assistir ao parto que isto são coisas que sempre demoram. A mãe já se contorcia, perguntou pela anastesista, a parteira riu-se, já quer anastesista, tudo tem o seu tempo, ainda é cedo. Os pais despediram-se, voltaria às 9... se não nascer até lá. Não fosse o extremo cansaço e talvez ele tivesse discutido que tinha o direito de ficar. Mas assim não aconteceu, voltou a casa, para junto dos dois maiores. A mãe estava aparentemente calma, a hora tinha chegado, às 37 semanas, não às 30, não às 34... mas às 37, por isso estava feliz. Já perto das 5h, deitaram-na na cama ao lado da cama, onde havia nascido o João, as dores apertavam, a parteira veio observar, o médico já tinha desaparecido. Afinal os 3 dedos eram 5... não havia muito tempo, chamou-se (finalmente, pensou a mãe) a anestesista. Uma senhora de meia idade e voz atabacada, apareceu mais ou menos pelas 5h30, fez a incisão, e fez uma segunda incisão pois o corpo da mãe tinha decidido sangrar de mais... o alívio apareceu em 10 minutos, talvez menos... ficaram com a mãe até ela dizer que a dor tinha abrandado, e depois afastaram-se, conversavam ao longe. Mais 10 minutos e a mãe começa a sentir uma enorme pressão, eram 6h e 5 minutos, lembra-se a mãe de olhar. Chamou a parteira, era a hora de nascer. A anastesista, que tinha ficado por ali, a parteira e a auxiliar vieram acudir ao nascimento, o médico não tornou a aparecer. Fez-se a força, doía um pouco mesmo lá em baixo, era a cabeça a aparecer... e mais força, três ou quatro vezes, e um corpo, que naquela altura aos olhos da mãe parecia alado, foi-lhe pousado sobre o seu, ainda o cordão pulsava e umas mãos pequeninas agarravam as suas, contou-lhe os dedos, olhou os dos pés e encontrou a perfeição e a sua respiração a voltar ao normal. Levaram a menina para a vestir. A mãe ficou a ser costurada, de uma laceração que parecia não ir acontecer...
A menina, agora vestida de princesa foi colocada no colo da mãe, tinha um choro miudinho, um gemido e não se o leite do seio da sua mãe. Chamou-se a pediatra, para ouvir o gemido que não passava... levaram a menina, voltaram com ela para se despedir com um beijo de mãe sufocada. A menina agora despida de princesa, mas com o seu espírito ainda alado pela vida que apenas acontecia, foi levada para uma redoma de luz e calor, onde recuperou durante o seu primeiro dia.
O resto da história, vai sendo contada, pelos dias que desfilam, pelas vidas renovadas que uma nova vida sempre impõe.
O resto da história conta dias felizes, horas em que se balança amor com cansaço, alegria e preocupação.
O resto da história conta que algures dentro de uma casa, onde dentro de um ventre, um dia uma princesa se gerou, fruto de uma surpresa que o destino ofereceu, vive uma grande e feliz família
O resto da história fica para um depois... agora... a princesa acordou!


*mais que breve parto, não o relato

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sem Palavras


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Milagre que acontece, uma vida que amanhece!

Clara, 1ªs horas


O mundo roda, e nós aqui esperamos que o nosso lugar se mantenha enquanto tudo à nossa volta se modifica. O ventre verteu a àgua anunciando um novo caminho nas nossas vidas.
Esperou a madrugada e ofim do compromisso que o pai prendia. Pelas 3 da manhã o líquido que alimenta a vida escorreu do dentro... umas escassas horas depois, pelas 6h15 da manhã do dia 7 de Dezembro, nasceu a Clara. Um parto rápido e sossegado. Veio com a alvorada, não fosse ela também, toda luminosa!
Pesando 2,750Kg e com uns minis 45 centímetros, no dia em que completava 37 semanas no ventre, a Clara apresentou-se a este nosso mundo.
Conta a história, que meia hora após nascer fosse levada para passar o seu primeiro dia na incubadora... as horas difíceis tornaram-se luminosas com o amanhecer do segundo dia e a ordem para sair.


O sossego hoje reina, enquanto a luz ou a fome a despertam do seu grande sono. Ontem foi dia de regresso a casa, com o mano a trazê-la com o orgulho. Mas do alto dos seus 3 anos, todos estes sentimentos ainda se fazem confusos, por um lado a adoração embevecida, por outro a falta da mãe que já à 7 semanas não lhe dá colo e agora no seu colo tem um outro ser pequenino. Tudo a gerir com amor e com esperança, de que em breve, também no João toda a confusão se transforme em serenidade e alegria. O mano maior, agora com dupla responsabilidade pega ao colo com deleite na mana pequenina, põe um olho ao João e exclama: durante 3 anos vimo-lo a aprender tantas coisas, a mudar tanto, a crescer tanto e agora vamos viver tudo isso outra vez... - bem hajas meu Dudu por teres uns olhos tão cheios de luz.
Mãe e pai são mãe e pai... e as palavras são bem poucas.
Minha luminosa Clara, que a luz te guie sempre pelos caminhos da tua nova vida, quando esta te falhar, cá estará o nosso colo, sempre luminoso e quente, para te lançar em nova caminhada.

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