Escolhas nossas de cada dia


Todos os dias somos colocados perante escolhas. Difíceis, fáceis, algumas maiores, outras às quais não atribuímos grande importância. Somos confrontados também todos os dias com o resultado das nossas escolhas, somos aquilo que fazemos, as portas que fechamos, a brisa que recebemos, somos um produto de infinitas escolhas acumuladas e é com elas que temos de atravessar cada dia, de decisões outras e assim construindo o nosso universo.
Na maioria dos dias estou de bem com as minhas, apaziguadas a um canto da consciência, se as procuro desfilar perante os meus olhos e a minha memória, geralmente possuem todas a sua explicação, o seu quê de perfeito, a sua ordem naquela que represento e que me apresento.
Felizmente não existem escolhas difíceis todos os dias, as que fazem parte do dia a dia parecem ser remetidas para uma ala imaterial do cérebro e lá permanecerem na sua inconsistência consciente.
Hoje, são essas escolhas que desfilam na minha mente, as escolhas que fazemos dia a dia, ao educar, ao mostrar, ao dar, ao tirar, ao abrir, ao castrar... inúmeras pequenas acções que vão imprimindo carácter, vão moldando as suas pequenas vidas.
Uma amiga que tanto sabe disse-me um dia para escolher as batalhas, nunca as irei ganhar todas, por isso fazer uma lista daquilo que considero mesmo importante não ceder, e manter-me fiel a essa lista. Nas outras coisas, um pouco de maneabilidade não fará mal. Fiz a lista mentalmente, sei na teoria, o que é necessário para que eu considere alguém uma boa pessoa, ou uma pessoa só assim assim, ou até má. Sei na teoria.  E sei que os super-heróis são os bons da fita, e que os vilões são os maus.  Sei que "respeito" e "serenidade" são conceitos demasiado abstractos para serem ensinados, e que por vezes precisamos de ajuda para conseguir explicar, com palavras mais pequenas, aquilo que queremos explicar. Sei que é importante o exemplo, sei que mil vezes poderei mostrar com o meu comportamento aquilo que tantas palavras não poderão explicar.
E sei também que há horas de tudo, há horas em que a voz se mantém firme sem perder a serenidade, e há horas outras em que sem saber muito bem de onde, a voz se avoluma, e a minha figura fica do tamanho das sombras e faz tudo aquilo que eu lhes digo para não fazer.
Sei que há horas que provavelmente estarei a fazer a coisa mais acertada, se a coisa acertada existir, e sei que há outras que estarei redondamente a errar. Sei que o meu desejo de permanentemente fazer a escolha certa, agir da maneira correcta, não me impedirá nunca de errar.
Mas hoje estas palavras escorrem como prece, a prece das escolhas dos aflitos, dos que se deixam guiar, para que podendo estar a escolher bem, ou a escolher mal, eu possa sempre mostrar firmeza, serenidade e discernimento.
E quando a serenidade me abandonar, a voz se avolumar, e face a uma decisão a tomar para lhes mostrar um caminho eu pareça um gigante ensombrado, perdido aos seus e aos meus olhos sem saber o que fazer.  Que a vida possa mostrar-me a humildade de lhes fazer entender que as mães também erram, também por vezes se esquecem que gritar não é bonito, que se esquecem que há palavras que os filhos ainda não sabem entender, que não sabem muito bem se o castigo acaba ali ou se deve continuar, que não sabem por onde ir, porque alguém se esqueceu de nos mostrar o caminho.
E que a vida me possa dar a infinita capacidade de lhes mostrar que a cada escolha que fazemos, há algo que fica para trás e algo que nos imprime, na pele, nos olhos e na parte de dentro do peito, um Eu.
A minha escolha hoje foi a de despojar esta imperfeição, a das escolhas que nos marcam levemente, a das escolhas que residem dúvidas, estas escolhas pequeninas que se chamam educar, criar, amar, e que hoje me apertam o peito, e que amanhã não deixaram de apertar.
E de um abraço bem apertado nestas pequenas vidas que já não são minhas, no profundo desejo de lhes estar a mostrar o melhor caminho.

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