Fim de dia

Corre corre lufa lufa agiganta encolhe passa rodeia escolhe e termina, todos os dias com o sentimento de que foi pouco de que quero mais, que preciso de mais energia, para esticar o dia, para vê-lo a crescer. Neste imenso inicio de ano, de inverno prolongado, de portas fechadas, voltadas para o dentro de nós. Os dias sabem a pouco, muito pouco, apenas o intervalo do chegar a casa ao fim da tarde, a necessidade do tempo de preparar um jantar, a ausência de pouco mais que uns minutos para estar, somente ali, a olha-los a sentir-lhes o cheiro, a beber-lhes as gargalhadas. Um fiquem aí que eu tenho que, e este tenho que, que vai esmagando todos os dias, num súbito jantar, por vezes mais tardio que o desejável, já com cansaços à mistura, lutas inglórias para que termine com os pratos vazios, correr para um banho a dois, momento belo mas que não convém que se prolongue se não o amanhecer será difícil. Um abraço quentinho enquanto limpo a Clara e a faço dar gargalhadas, fica deitada na sua caminha ou espera na sala com o irmão pela sua vez, enquanto o João sai do banho onde ficou a ensaiar poses de mergulhador. Às vezes rimos, às vezes não, o João é um público mais difícil para as minhas palhaçadas, que lhe puxo o cabelo, que o pente magoa, que a roupa não está quente, que lhe aperto o braço. E ao lavar os dentes invento uma música estapafurdia e sempre nasce o seu sorriso, ou a gargalhada misturada com sono. A cama amarelada pela luz da sua lua quarto minguante encostada na parede, o seu inseparável ursinho cuja voz transformo e sempre lhe fala das saudades que sente. Sabes porque não vou para a tua escola João? Porque lá não é uma escola de ursos... E os dois abraçados. Um fica aqui, só um bocadinho, tenho medo. Mas não precisas. Gosta do meu cheiro, fecha os olhos. Afasto-me num tem que ser. Falta a mana, às vezes. Vou busca-la depois de preparar o morno leite com que se embala. Que doces cheiros. Deito-a, depois do leite fecha os olhos devagar e com magia. Que momento. Este em que o sono lhes vence o dia e de repente a realidade se transforma. Ansiei por este momento, em que sou minha, em que o dia é meu e em que a tranquilidade veste a casa. E quase invariavelmente pouco depois deito-me também. Sinto que perco, que me perco, nesse pedaço de tempo em que podia ter mais de mim. Mas neste momento, normalmente, vence o cansaço.

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3 brilhos:

Luísa disse...

Que bom ler-te :-)
abraço grande, de mãe para mãe.

Pati e Bea disse...

Sempre tão bom ler-te...apesar de não ter o dobro do trabalho que tens o cansaço também acaba por vencr cá em casa...
Beijinho

Helena disse...

já tinha saudades
e que pena os dias não terem mais horas, mas só quando chegássemos a casa para poder "viver" os nossos filhos.
Beijocas