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Dias que sangram por dentro

Há dias que sangram por dentro, dias em que nem sempre se encontra a solução para o equilíbrio. Dias que não se repetem, ficam lá atrás como uma mancha na lembrança. Corroem o peito devagarinho e persistem na sensação de que podíamos ter feito mais, podíamos ter feito melhor.

Há o dia em que ele me pergunta ao final da tarde porque eu não estava a ver o desfile dele do carnaval, o dia em que chora porque eu não pude ir à escola no dia da mãe, o seu dia de aniversário na escola em que as velas não foram sopradas nem com o pai nem com a mãe. Há os dias em que chegamos tarde e o abraço parece querer desculpar-se, em que o beijo gostaria de gritar que não vai mais acontecer. Há os dias em que a manhã os deixa ainda adormecidos e que há que bater a porta ainda antes de eles se levantarem. E ainda o explicar doentio que este ano talvez não consiga cumprir a promessa das férias, porque não será possível fazermos férias todos juntos, toda a família. 

Esses dias são punhais afiados, lágrimas sufocantes de revolta. De um não devia ser assim, não podia ser assim… tem de haver outro caminho, outra solução.
Sobre uma outra luz entender que a família é embrião de tudo, comunhão de afectos, nascimento de indivíduos. E que se tivermos de falhar, que não seja ali. Se tivermos de faltar, que não seja a eles. Se tivermos de nos ausentar, que não seja do papel maior de pais e de mães.

Respeitar seria o mote. Valorizar o tempero e Apoiar seria o caminho.
Respeitar a família enquanto núcleo base na formação da sociedade.
Valorizar o tempo que se ganha em família como essencial.
Apoiar o cidadão de modo a que ele possa equilibrar o tempo produtivo laboral e o tempo produtivo em família.

Passando no momento presente por um período muito delicado da minha situação laboral, temo que estas palavras possam ter um peso de algo que não deveriam conter. Mas a verdade é que toda a minha luta interior e exterior existe porque acho que estão a por em causa algo que é superior a qualquer emprego: a minha família.

O que eu proporia, se o meu grito deixasse de me sufocar o peito e pudesse ecoar no ouvido dos poderes instituídos seria algo que de tão simples parece absurdo ser necessário dizer.
Um mercado de trabalho que se entenda justo e cooperante, em que em troca de um serviço, que não são apenas as horas laborais mas as tarefas que realmente se realizam, recebemos uma compensação monetária. Mas que poderá ser realizado de inúmeras maneiras e não apenas das 9h às 18h. Todos temos de produzir, é um facto. E se pensarmos num empregado de uma linha de produção em que tudo acontece em cadeia, dificilmente se poderá sustentar um horário flexível. O mesmo acontece com um actor que esteja a ensaiar uma peça com mais 3 ou 4 ou 10, faltando um não é possível realizar o trabalho. E não podemos ignorar estas dependências e estas cadeias laborais, que fazem com que o acontecer não seja só de um, mas de vários. Mas mesmo dentro destas interdependências pode haver um caminho de repensar os horários de trabalho, da realização de jornadas contínuas, da planificação semanal e por tabelas dos horários, tudo isto consagrado já na nossa lei.

Para outros trabalhos, no qual me enquadro, existe grande parte do esforço que é realizado a solo. Nesse caso é muito mais fácil ajustar a jornada a necessidades pessoais. E no caso de ser necessário acompanhar a família, poderia ser possível realizar um banco de horas de compensação. Ou até mesmo, sobreviver na ausência de imposição de horários, mas realizar o trabalho por tarefas: e aqui reside a verdadeira transformação de mentalidades.

A uma pessoa que trabalhe à tarefa e não por horário:
É-lhe imposta a tarefa X que ela vai terminar em 2 horas. O empregador tinha calculado que ela demoraria 3. No dia seguinte o empregador vai dar-lhe a tarefa X mais a tarefa Y, pois ela afinal trabalha mais depressa que o suposto. Isto sucessivamente. A verdade é que a maioria dos empregadores, não está preparado para que o seu colaborador despache o trabalho mais rápido do que era suposto. É mal visto, ou é sinal de que o volume de trabalho deve ser aumentado.

O trabalho por objectivos deve ser valorizado e apoiado. E a gestão do tempo de trabalho também pode ser feita de acordo com a vida pessoal do trabalhador. A grande revolução, para mim, reside aqui: em respeitar que o colaborador, funcionário ou trabalhador tem uma vida pessoal e que esta deve ser respeitada.
Num mercado de trabalho ideal, é necessário que sejamos produtivos, que compensemos a empresa caso necessitemos de dar apoio familiar extra. Mas para isso é necessário motivação e respeito.

É necessário que o dia-a-dia seja pensado de forma a cobrir as necessidades laborais, pessoais e familiares. A minha proposta é de um dia de trabalho que termine mais cedo e que permita deste modo dar mais acompanhamento à família. Em caso de tarefas que possam ficar por fazer o trabalhador poder fazê-las na sua gestão de tempo, cumprindo os objectivos que foram colocados em conjunto.

Uma proposta concreta que queria aqui deixar, tipo nota de rodapé, é que a lei permite a que se acorde um part-time até a criança fazer 12 anos. O que sugiro é que a semana laboral para pais e mães com filhos até aos 12 anos passe a ser de 30 horas semanais (6 horas diárias, mais ou menos) e que 
a contribuição à segurança social possa diminuir, nesse período, de modo a que o salário líquido não seja tão afectado. O empregador garantiria o salário bruto mas diminuiria o seu encargo com a segurança social. (seria uma espécie de apoio ao acompanhamento familiar…)

O que eu queria mesmo, era não ter tantas vezes o peito a sangrar, porque mal chegamos a casa é hora de deitar, por dizer aos meu filhos que não posso ser eu a levá-los à escola, que não posso estar no dia da mãe… que vão ter de soprar as velas sozinhos…de lhe dizer que ainda não sei se nas férias da escola vou poder estar com eles...

Este texto faz parte de um movimento que surgiu com o mote Revolucionar para Flexibilizar:
Aderi a este movimento, porque acho que vivemos uma inversão de valores, que é importante produzir, mas mais do que isso é importante viver e respirar fundo, sem sangrar.

+ info aqui:

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Por um mundo de trabalho mais flexivel

O repto foi lançado inequivocamente, alguém apelava a que neste dia de 28 jogássemos ao jogo e se!
E se.... pensei eu, que o que mais desejo há muito muito tempo é alguma flexibilidade dentro das organizações em que me vou inserindo.
Antes fez-se o preâmbulo no pensamento: recordações do tempo da licença de parto (em que trabalhei parte dela a partir de casa)... recordações da segunda licença de parto, em que desenvolvi um projecto artístico há muito planeado.
Sou menina de variados ofícios, de saltitantes ideias, de gostar de pão e também gostar de queijo, e de gostar, antes de mais, de ter as mãos cheias de coisas que vou criando, que vou alimentando, que vou amando.
Preâmbulo numero dois: Depois do nascimento dos meus filhos foi necessário recusar coisas a nível laboral que os prejudiquem... e com isso a dita "carreira" compromete-se... recusar estar em viagens dois meses durante o ano... recusar horas extras... coisas que impliquem que o dia a dia deles se comprometa.
A verdade é que apesar de continuar a desejar fazer uma tonelada (e mais meia) de coisas, de continuar a ter mil e um projectos a quererem sair da gaveta a prioridade é o bem estar deles, o equilíbrio e o máximo de tempo disponível para as suas meninices.

O dia a dia fora das 9h às 18h... eles no seu depósito-de-meninos, no qual confio plenamente mas com a angústia do número de horas em que lá são deixados... e no parco número de horas que sobra para que em conjunto ensaiemos modos de ver o mundo, brinquemos com nuvens brancas ou fiquemos simplesmente entre sorrisos e olhares perdidos.

Depois do preâmbulo deixo o rectângulo, o meu desejo, o meu e se (unida ao movimento dos part-time lovers)

E na minha visão imediata o que vislumbro é um fantástico tempo, bem dividido, apurado com minúcia e em que as mães ou os pais, ou os que assim o entendessem, laborariam no tempo em que os pequenos deveriam ser consagrados à escolinha. Na pública termina às 15h30 e a essa hora terminaria a jornada de trabalho (contínuo já daria umas 6h e 30) A partir dessa hora brotariam abraços, gargalhadas, parques inundados de sorrisos... onde se ganharia o tempo, o tempo da formação, o tempo do equilíbrio, a formação cívica, a dos valores, a das boas maneiras seria ministrada ali, nos jardins, pelas ruas, à beira mar, perto dos rios, pelos pais... pelos cuidadores e não empurrada para os professores/educadores que têm de se desdobrar para fazerem todos os papéis que os pais deixaram de ter tempo de fazer...
E eu poderia aqui dizer que esse tempo de educação pela família era um serviço público, e que até devia ser remunerado, mas não chegarei tão longe. Vou dizer que era um serviço imprescindível, desejável e que só poderia trazer melhores cidadãos para este nosso mundo. (Ao invés um chega a casa pelas 19h ou 20h e entre fazer uma refeição, um banho e deitar, quanto tempo sobra que a nossa visão do mundo passe para os pequeninos olhos que esperam tanto de nós?)
Chegar-se-ia a casa numa aura feliz, a tempo de preparar uma slow-food, em conjunto, de a fazer em família, demorando-nos nas conversas. Ganhando tempo.
Os meninos cedo se deitam, e o tempo volta a poder ser do trabalhador. Neste after-hour o part-timer poderia deixar de o ser e usá-lo para a partir de casa realizar o que ficou pendente, terminar algum projecto. Ou no meu caso, usá-lo para as outras mil e uma coisas que tenho na manga com muita vontade de as fazer sair.
A minha defesa do part-time é a da possibilidade de ter cidadãos com uma formação em família, gente que se une por elevar a instituição mais perfeita de todos os tempos, embrião de afetos, gestora de sonhos e alavanca de tantos projetos.

Um part-timer que trabalhe menos horas, pode realizar as mesmas tarefas, pode compensar fora de horas com maior volume de trabalho, e pode ainda fazer algo por este nosso mundo, que é deixar filhos com as mãos (e os olhos) cheios de sementes de esperança para este nosso mundo!

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Olhares

Existem duas coisas que me conseguem iluminar a nuvem mais cinzenta:

Este Olhar:



e Este:

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Momentos

Há momentos e cores que definem os dias


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a minha hora

esta é a minha hora. a hora em que o silêncio toma conta dos sonhos cor-de-mais-qualquer-coisa. a hora em que depois de todas as pestanas se fecharem e a respiração tomar um ritmo compassado. as portas se encostam para que o mundo dos sonhos seja deles, e eu me re-centre no meu umbigo. esta é a hora em que tantas vezes não sei onde pousar os olhos, não sei onde esconder as mãos...

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Era Verão

e nós aprendíamos a partilhar








e a cuidar dos mais pequeninos.

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Horas contadas

Acho sempre que o tempo é pouco, que não serei capaz de registar nada que valha as linhas que ocupa. Que a mente esvazia-se face à quase imposição de um: tenho de escrever um post se não a Fábrica fecha. E cá estou eu de coração e palavras em riste, na batalha para que os dias que escorrem se possam também aqui espelhar.  A culpa é do tempo, esse malvado roubador de textos em Fábricas de meninos. E do corre corre lufa lufa e cérebro desmaiado no final de tantos dias.
A esses, os dias, gosto de os ver a derreter, devagar, a serem preguiçosos e demorados e as horas em que somos "todos" se encherem de toques, abraços, gargalhadas, mimos, consolos, mais mimos, beijos e olhos que se tocam, num quero tanto que sejas meu para sempre. E este para sempre enche-me o peito, para os dias pé-de-lebre que nos fogem dos dedos, que nos fogem dos olhos... os dias mais rotineiros, mas injustos, em que há sempre a pressa de qualquer coisa, a hora de acordar, a rapidez no vestir, as mãos cheias de meninos e mochilas e casacos e minutos, muitos minutos a encher... um tempo de outras vidas, outras lutas e de nova a corrida do tirano tempo, despe, banho, sopas, pratos cheios, alguns beijos. Já é tão tarde, rápido para a cama, uma história que se acaba, o tempo é de dormir.

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