Lilypie Fifth Birthday tickers

Lilypie Second Birthday tickers

18 meses de Clara

Recordo esse dia numa memória que ainda não tem nuvens. É tudo tão claro, tão cheio de detalhes que arrepia. A hora da madrugada em que quebramos o silêncio do bloco de partos, o nascer quase tranquilo, o corpo sentido do lado de fora, o respirar com gemido, a incubadora, os pernas excessivamente inchadas ao longo de um dia a subir a descer pisos, o sentimento da distância, o dormir sozinha sem ninguém na barriga e sem ninguém ao lado, as dores dessa noite, o amanhecer e finalmente amamentar a minha cria, um colo meu no seu corpo nu e perfeito depois vesti-la de roupas e de afectos.

Um ano e meio de descobertas neste ser mãe outra vez, que me inunda por dentro de uma energia tão nova e diferente. Esta surpresa de poder amar tanto e cada vez mais. Esta imensa família que nunca esperei ter. Uma moldura bonita que hoje decidi pendurar na parede da minha memória, a lembrar todos estes belos 18 meses em que me transformei, devagarinho, num eu maior, mais forte, mais capaz.

A Clara é uma delícia, um encanto, de personalidade viva e vibrante, senhora de um nariz arrebitado e barriga empinada. Um pouco empertigada mas  tão doce. Dá abraços e alguns beijos. Gosta de risos, de andar muito depressa, às vezes até gosta de cair, quando o faz devagarinho e parecendo rebolar quando chega ao chão. E ri-se, ri-se muito como se a essência da felicidade estivesse naquele louco tombo.

Gosta dos irmãos, que a provoquem, que a façam rir, mas não gosta que a apertem, que a condicionem. Dizendo um "pára" inequívoco. Ou um "itão?"

Fala muito , de palradora de palavras sem sentido passou a falar muitas coisas que se percebem, foi um repente e agora faz-se entender com palavras dela e nossas: bada (água) impinho (guardanapo - de limpinho) papinha (=) opinha (sopinha) bebé (=) apato (sapato) pé (=) beia (meia) élha (orelha) mão (=) dudu (=) oão (João) mano (=) caca (vaca) ixa (xixa) bigo (umbigo) pipi (=) mãe (=) pai (=) bóbó (vovó) roji (arroz) batapita (batata frita) qué (quero) eitinho (leitinho) não (=) xim (sim) colho (colo) banhinho (=) chão (=) teté (chupeta) ola e xau.... bolha (bola) aça (maça) naninha (bananinha) buta (fruta) cóco (óculos) cão (=) gaco (gato) uz(luz) xai (sai) queijo (=) ixo (lixo ou bicho) cocó (para pedir a música doidas doidas doidas) e sobretudo he he he a toda a hora para pedir qualquer coisa...

Adenda de palavras que me esqueci: vinho (=)  eija (cerveja) fecha (=) abe (abre) dá (=) pega (=) toma (=) alda (fralda) pota (porta) ois (dois) alhau (bacalhau)deita (=) mas deita serve para almofada, cama...

E começa a juntar em frases: hum qué pão, hum qué teté, quem é?, hum tá e outras que inventa apato oão pé... dudu hum pota...a colho a bebé... pota fecha...


Da consulta poucas advertências fica o peso 10,9kg e o tamanho 80cm, andar descalça e ir à praia e comer de tudo.

Não sei se registei aqui, mas a Clara começou a andar com 16 meses e 10 dias, no dia da festa da aniversário da prima. Depois teve uma pausa de duas semanas ao fim das quais aventurou-se outra vez.

Clara caminha para ser feliz.

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Mesmo no meio de um duro dia de trabalho

E de eu permanecer serena a maioria dos dias. De vez em quando um assombro de tristeza transforma-me os olhos em cor de vidro... o João é gémeo de um anjo e às vezes eu não entendo em mim o que isto quer dizer...

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ser

De repente a brisa plácida e calma. Um pouco de um calor cinza que bate no rosto e o anima. Observar o dentro que se reclina suavemente para fora. Sou dos dias de sempre, das madrugadas tranquilas, dos céus que se renovam a cada instante, prometendo e oferecendo inúmeras  possibilidades de cenário. Sou as manhãs calmas, vagarosas e com preguiça a beber o sol em golos pequeninos. Sou dos abraços que se espelham no peito e do beijo repenicado e húmido que escolhe o calor da face amanhecida. Por vezes esqueço, a tranquilidade parece querer ir morar noutra brisa que não esta, e uma inquietação sempre desconhecida e nova vem morar-me nos olhos e nas mãos que se tornam ineficazes. Esqueço-me da matéria de que sou feita e da qual, como barro, posso moldar cada dia se tiver brio e afinco. E pareço ver ao longe este corpo estrangeiro, desfalecer depois de quebrado e curvar-se perante a inquietude e a sombra. Hoje a brisa plácida, calma e cheia de chilreios inundou-me os olhos de caminhos, encheu-me de uma nova força anímica, quem se não eu pode guiar os passos pelos dias? Não sei por onde quero ir, que portas se abrirão ou que abrirei, não sei que canto é este que hoje ouço e que me transforma. Mas sei que não posso suspender os sorrisos que me olham expectantes, que me esperam, que me abraçam com seu brilho e que me exigem que seja aquela por quem o seu coração bate e desespera. A mãe serena, firme e crente, nos dias, neles e em todo o sentido que tem cada minuto de vida.

E nesse reencontro comigo e com a vida, encontrar os olhos que o amor identifica, beber-lhes toda a doçura e vestir-me dela. Ser afinal, com verdade e pureza aquela que faz os seus mundos, que pinta os céus, que doura as estrelas. Hoje é dia de sacudir o pó do baú onde moram os pincéis da vida.

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Por antecipação

O corpo encolhe-se um pouco, para a frente e para baixo, de repente pareço ter levado um murro no estômago vindo do nada. Oferece-me o sentimento de um vómito que fica a pairar no horizonte dos dias de amanhã. Confirma-se que há vaga para a Clara na creche, desejo nosso de que vá em Setembro. Mas num assombro de ser mãe e de ter esta amarra presa ao meu corpo visualizo os dias da separação, as horas intermináveis, o saber se está bem... o acontecer diferente dos dias. E depois a aceitação, o saber que é assim, e que tal como o João vai chegar o dia que a vou deixar ali com uma confiança quase cega e absurda e que nem sempre o meu pensamento irá para eles durante o dia, e que nem sempre sei o que lhes acontece, como passam estas inacreditáveis oito horas. De que matéria será feito os seus pensamentos e em que apuros não estarão envolvidos ao longo de uma longa jornada. E a sensação persiste, a do murro no estômago, a de vómito e a da resignação que se segue. Um dia teremos de deixá-los ir. De lhes limpar o pó das asas não usadas, sacudir-lhes o voo, beijar-lhes a fronte escondendo as lágrimas e o coração que se aperta, e a garganta que se encolhe, e o grito que sufoca de um pavor que diz e agora que faço eu? E sempre o dever: Deixo-te ir. Voa que agora o mundo é teu.

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Ontem foi o dia do 33

e para balanço de vida em número redondo, fica o registo de 33 coisas pelas quais sou grata:


1- Pela vida
2- Pelos meus pais
3- Pelos meus filhos
4- Por ter um tecto
5- Por ter quem me ame
6- Por saber o que é amar um filho que não é meu
7- Pelos amigos que ficam
8- Por acreditar no amanhã
9- Por acordar
10- Por ter 33 anos com saúde e pela saúde dos que são meus
11- Por gostar de fazer muitas coisas
12- Por ter tido sempre muitos livros para ler
13- Pelo teatro morar em mim
14- Por todos os pores-do-sol
15- Pelos céus vermelhos que já vi acontecer
16- Pelos sorrisos de manhã dos meus bonecos
17-Por ter um emprego
18- Por todas as palavras que consigo escrever
19- Por saber que um raio de sol pode transformar o meu dia
20- Pelos abraços sinceros
21- Pelas viagens e terras que já conheci
22- Pelas memórias
23- Por nada ter sido em vão
24- Por todos que acreditam em mim
25- Por ter uma casa cheia
26- Porque nunca me faltou alimento
27- Por ter um ofício
28- Por ter uma família grande, unida e que me é querida
29- Por ser tia
30- Por cada dia
31- Por todas as vezes que fui além do que seria possível
32- Por cada coisa que corrigi em mim
33- Por ter chegado aqui

Talvez fossem mais, talvez existam outras, talvez pudessem estar aqui 33 coisas diferentes e fazerem também sentido. Importante é sabermos que estamos vivos, e depois de o sabermos decidirmos o que vamos fazer com isso.

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João Questiona [?] III

- Mãe como é que o médico tira o bebé da barriga das mães?
- Ele abre um buraquinho na barriga e tira de lá o bebé... (sempre achei a versão da cesariana um pouco mais leve e adequada)
- Mas como? Explica-me melhor.
- Bem, olha para a tua mochila com coisas lá dentro, abres o fecho tiras o que está dentro e depois fechas outra vez.

Felizmente e por enquanto ficamos por aqui

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João comenta

- Mãe quando eu for grande quero ser cortador.
- Cortador?
- Não enganei-me, jardinador, não jardineiro.
- Que bonito filho...
- Eu quero cortar a relva, por flores, tratar das plantas...
 - Está bem João, tens de ir treinando na casa do avô!

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